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02.AGO.16 - 10:41

No mundo da Né «não há espaço para a solidão»

As dificuldades financeiras e as sequelas de um AVC não impediram Daniela Reis, estudante de Teatro da ESAD.CR, de criar um projeto de recuperação para pessoas que sofreram um acidente vascular cerebral. Trata-se de uma tese prática onde as ferramentas de reabilitação são a voz, a respiração, o corpo, a interpretação.

«O mundo é um palco» onde mulheres e homens não passam de meros atores. A expressão eternizada por William Shakespeare, na peça «Como Queiram», leva o leitor a olhar para o paralelismo entre o universo em palco e os acontecimentos da vida real. 

Daniela Reis, estudante da Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha (ESAD.CR), é uma das mulheres (e também atrizes) deste mundo que a partir de materiais utópicos, encontrados na representação, espera provocar um impacto positivo no palco de outras pessoas. 

A vontade da estudante, também conhecida como Né, vai materializar-se num trabalho académico e, posteriormente prático, de recuperação de doentes que sofreram um AVC através das artes cénicas. 

Para ser capaz de desenvolver a tese de mestrado «O Treino de Ator Como parte da Recuperação de Doentes de AVC», a jovem de 30 anos e também professora de música e de expressões dramática e plástica recorreu ao financiamento coletivo, na plataforma PPL. 

Sem apoio financeiro de terceiros e ela própria vítima de um AVC hemorrágico há quase uma década, Daniela não conseguiu ter acesso à bolsa. Ainda assim, «à revelia» da família, decidiu voltar ao Ensino Superior para terminar o mestrado.  

«Vi-me numa situação desesperada, a viver de uma pensão de invalidez e de algum trabalho que tenho feito para conseguir sobreviver», conta a estudante da ESAD.CR, em entrevista ao Canal Superior, que após o AVC, teve de reaprender a ler, escrever, andar e falar.  

Tendo em conta as circunstâncias económicas de Daniela, o orientador de tese da estudante, Guilherme Mendonça, sugeriu a realização de uma campanha de angariação de fundos. 

A ideia resultou. Daniela Reis ultrapassou a meta em apenas uma semana (1514 euros) e o «impacto» do projeto sentiu-se desde o início. 

«Muito apoiantes de várias áreas e até doentes em recuperação manifestaram interesse num futuro projeto de reabilitação por via do treino do ator, sobretudo porque a interpretação convida o doente a aceitar o seu novo eu, a aprender a lidar com ele em grupo. Em grupo não há espaço para o sentimento de solidão que muitos doentes experimentam durante a recuperação», remata.   

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